Volta e meia eu escuto mulheres amaldiçoando quem inventou “essa
coisa de direitos iguais”.
“Agora temos que trabalhar em casa e fora de casa.”
“Os homens já não valorizam as mulheres, não são
cavalheiros, românticos, só querem saber de sexo.”
São essas basicamente as duas queixas mais comuns.
Pois bem, meninas, querem se queixar? Falem comigo.
Eu vivi e lutei pela mudança dos costumes e igualdade de
direitos, eu sou uma dessas feministas.
Por que?
Vocês podem ter uma visão romantizada dos tempos antigos: a
mulher cuidando da casa e dos filhos, com tempo para se arrumar, descobrir
receitas e ainda estar cheirosa para o marido quando ele chegasse depois de ter
trabalhado e lutado para sustentar sua família.
Achar que os homens todos ganhavam muito dinheiro para
sustentar suas lindas mulherezinhas é um pouco de inocência, né?
E se você não tivesse marido? Se ficasse solteira? Ia gostar
de ser a tia sobre quem recairiam todos os encargos familiares?
E se seu pai fosse pobre, se seu marido não ganhasse o suficiente,
se você ficasse viúva, se ele te batesse e você tivesse que se separar ou se
ele a abandonasse? Você estaria trabalhando em condições muito piores do que
hoje, sem as oportunidades no mercado de trabalho conquistadas pela luta
feminista e pelo livre acesso à educação.
Enfim, não amaldiçoe o seu trabalho jogando a culpa nas
feministas porque se você quiser, você pode parar de trabalhar e ficar esperando
que um príncipe encantado a leve para morar no seu castelo. Trabalho, dentro ou
fora de casa, não é maldição, é realização, é escolha.
Quanto às tarefas domésticas e aos cuidados com seus filhos,
é seu papel escolher um homem que as divida consigo, que fique com a maior parte delas e trabalhe (e ganhe menos) ou mesmo um homem que se dedique exclusivamente a elas para que você trabalhe. É sempre uma questão de escolha, de arranjos.
Ai, mas já escolhi e meu marido é um desastrado na cozinha,
não olha as crianças direito, jamais saberia cuidar da casa.
Será que você não está defendendo a casa, território
“feminino”, para não ter concorrência? Desapega!
Tente tirar de sua cabeça os ideais de limpeza e organização
de uma mulher que não trabalhava fora de casa. Pendure na sua casa uma faixa
“Isto aqui não é um stand de decoração, aqui vive uma família e isso se chama
lar.”
Agora, mesmo um homem moderno, compreensivo, inteligente e amoroso
que ganhe menos que um macho provedor só vai dividir as tarefas domésticas se você usar seu poder de
negociação para fazer acordos igualitários em casa porque o ser humano (homem
ou mulher) é mesmo um bicho muito folgado, minha filha.
Negociar como? Sabendo o valor que você tem.
Igualdade de gênero significa uma libertação para o homem
também, significa que ele terá uma companheira, uma parceira para lutar com ele
ombro a ombro.
E ela será suficientemente inteligente e bem informada para
discutir os temas que o afligem no trabalho, por exemplo sem que ele tenha que buscar
uma amante no escritório para isso.
Ah, chegamos ao sexo!
A gente lutou pela queda do tabu da virgindade cujo objetivo
é valorizar a filha que passa do pai para o noivo intocada como um patrimônio,
um objeto imaculado.
A gente lutou pela educação sexual para tirar a culpa que ofuscava
o prazer de tantas relações, para viabilizar o controle da natalidade.
A gente lutou para que uma mulher que estivesse em um
casamento conflituoso ou sem amor pudesse se divorciar, tentar ser feliz de
novo e não fosse condenada e estigmatizada como era antigamente.
Enfim, a gente lutou para fazer com que relações de amor
passassem pelo sexo sem que as mulheres perdessem “valor” por terem uma vida
sexual plena.
Aí agora todo mundo acusa as mulheres de não se valorizarem.
Ninguém quis se igualar a alguns homens na banalização do
sexo.
O erro talvez tenha sido justamente não reforçar o legítimo
valor feminino, o amor próprio, a autoestima, aquela que foi dilapidada por
séculos de papéis secundários em uma sociedade masculina.
Além do mais, mulher quando se apaixona fica burra, né?
Junte essa burrice, autoestima mal construída e falta de experiência de viver em liberdade e temos a alegria dos malandros e suas promessas de amor eterno.
Mas sabem sinceramente o que eu acho? Eu acho que mesmo um pouco de sexo é muito sexo
para os valores tradicionais. Então, sem nos darmos conta, engolimos o duplo padrão de moralidade: o homem com um histórico amoroso é conquistador e a mulher é promíscua. Ou seja, quero ir pra cama com todas as mulheres mas minha mulher sempre foi só minha. Olha aí a tal da folga de novo! Ou seria insegurança?
E é de novo na autoestima feminina que a sociedade machista vai bater para
fazer com que as mulheres se sintam culpadas, se sintam ainda mais desvalorizadas.
Mas dupla moral é uma questão de tempo e lugar. É menor em
culturas europeias e é muito mais acentuada em países onde a mulher só pode
exibir os olhos.
Enfim, você se sente sobrecarregada, quer dividir as
responsabilidades financeiras e domésticas? Quer ser valorizada pelos homens?
Quer que eles sejam atenciosos com você? Não aguenta mais tanto malandro em sua vida?
Só tem uma pessoa que pode conseguir isso.
Você! A que não é mártir nem exploradora, nem promíscua nem
virgem imaculada, mas uma mulher forte, batalhadora e livre para escolher bem um companheiro e criar com ele
uma relação de harmonia e igualdade de forma inteligente e madura.
Ah, e nada de queimar sutiãs! Melhor usá-los para valorizar seu lindo colo de mulher amorosa e nele acolher o homem que a merecer.



