Toda mulher é mulher de malandro.
Sim, por favor. É
este desejo secreto que todo homem bonzinho deveria conhecer.
As mulheres adoram os malandros. O malandro repara na roupa, traz flores,
poemas ou convites para admirar o luar.
Qual dos dois as mulheres preferem?
Casamo-nos com os bonzinhos (aliás, eles são do tipo de
propor casamento), mas nos apaixonamos pelos malandros.
O bonzinho é correto, não mente, não trai, trabalha demais e
descansa de pijama e chinelo na frente da TV.
Ah, o ar de gato dos telhados comparado ao cão domesticado que temos
dentro de casa!
Cruel?
Crueldade é se enfeitar esperando um convite, um elogio, uma
cantada e receber de volta o suspiro desanimado de alguém diante de uma
obrigação.
Não há uma regra, mas os bonzinhos geralmente são
engenheiros, administradores, analistas de sistemas, militares, funcionários públicos,
executivos da Produção, do Jurídico ou de qualquer área onde tenham que exercer
continuamente o domínio da razão.
Os malandros?
Estes, quando trabalham, são publicitários, artistas, executivos
de Marketing ou Vendas ou donos de empreendimentos incomuns, homens que vivem
de expressar emoções.
Emoções verdadeiras? Nem sempre.
Assim como o bonzinho aprende cedo a se comportar, o
malandro lida com a imagem, vive da imagem, apega-se a ela numa escravidão
quase tão ferrenha quanto a do bonzinho.
É assim que ele fala mais do que sente, engana, ilude, cria
e desfaz fantasias com a facilidade de um mago do amor.
É como se ele tivesse que reafirmar reiteradamente seu amor
para torná-lo real. E ele ama? É claro que sim. Toda mulher que já se apaixonou por um
malandro duvidou um dia disto, para concluir que, real ou verdadeiro, o amor
dele é tão inebriante que vale a pena ser vivido. Flores sendo enviadas de uma cidade para a
outra, recados incandescentes na secretária eletrônica, elogios que a fazem se
sentir a mulher mais especial do mundo.
O que mais uma mulher pode querer?
Um amor verdadeiro?
Por que não? Já que é
muito difícil ensinar o malandro a amar verdadeiramente, fico me perguntando
porque os homens bonzinhos não aprendem com os malandros a expressar suas emoções.
Tive um vizinho (malandro) que deveria dar aulas para todos
os maridos do prédio, pois sabia como agradar à mulher amada. Surpresas como bilhetes nas calcinhas quando
ele viajava ou finais de semana especiais para comemorar datas das quais ela
nem se lembrava mais eram uma “rotina” na vida desta afortunada mulher.
Enquanto isto nós, suas vizinhas, ficávamos felizes quando
nossos maridos se lembravam de passar pela locadora e encomendavam uma pizza
para o sábado à noite.
Ciente de sua superioridade moral, o homem bonzinho só é abalado
em seu torpor quando a mulher o troca por um malandro (eles são irresistíveis).
A dor profunda é manifestada, agora sim, na proporção
inversa à falta de demonstração do amor.
Perdem os dois. A
mulher vai descobrir rapidamente que, com raras exceções, aquela fumaça toda do
malandro não escondia nenhum fogo mais duradouro.
Acostumada com a segurança e lealdade do amor canino, ou ela
adquire fôlego de gata ou vai correndo para os braços do primeiro homem
bonzinho que lhe aparecer pela frente.
Bonzinhos de todo o mundo, aprendei com os malandros!
Saiam do comodismo e esforcem-se para agradar sua amada.
Percam a timidez, façam carinho em público, tentem escrever
poemas, façam loucuras, sonhem em dupla com o impossível, reservem tempo para o
amor.
Vocês valem muito a pena, mas, desconheço produto bom que sobreviva
sem propaganda.

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